A POESIA DA TERRA DE GRACILIANO E KIEFER

 

Simone Vogel

 

 

Há muito, no Brasil, tem-se ouvido falar nos problemas da terra: campo, assentamentos, negociações, seca ...

A cada dia que passa o problema vem se agravando, mas nós, moradores da cidade, estamos distante do problema. E depois é difícil tratar de um problema social dentro da literatura.

O campo na literatura tem uma imagem bucólica, é um lugar perfeito, serve de refúgio, transmite paz, a mesa é sempre farta, a natureza é sempre perfeita, a terra é sempre fértil.

Porém encontramos na nossa literatura uma imagem mais real da terra. Graciliano Ramos em Vidas Secas, e Charles Kiefer em O pêndulo do relógio e Quem faz gemer a terra, nos mostram uma literatura voltada para um dos grandes problemas sociais: a terra, ou a falta da terra.

Esse problema nos é apresentado com todas diferenças regionais conhecidas: vivência, cultura, linguagem, amor pelo seu chão, poesia, mas uma coisa sempre permanece: a terra.

No sul do país ocorre um fato um pouco distinto que alguns escritores denominam como um amor pela nossa terra. E esse amor não é sentido só pelo homem do campo. Vários escritores gaúchos já nos mostraram esse amor pelo seu pedaço de chão. Bibiana de O tempo e o vento de Erico Verissimo, Josué Guimarães em Enquanto a noite não chega, Sérgio Faraco que nos fala da vida no interior do Rio Grande do Sul, usando sempre uma linguagem típica, mostrando um amor a nossa terra, Aldyr Garcia Schlee nos fala com paixão da vida na fronteira . E, em todos estes casos o que se valoriza é o emocional, um amor que está conosco na música, na literatura, na poesia, no cultivo as nossas tradições, um amor a nossa terra. Podemos encontrar, na literatura brasileira, vários textos falando do problema da terra, mas certamente não encontraremos esse apego como na literatura gaúcha.

A vida na terra tem duas faces, no sul do país ainda encontramos exemplos de felicidade e fartura na terra como vemos nos trechos de Quem faz gemer a terra, de Charles Kiefer. “todas as noites depois da janta a mãe abafava a luz do lampião à querosene e da minha alegria. Eu queria brincar um pouco mais, caçar vaga-lumes... ” . Em outra passagem vemos “Em casa, no começo, se plantava milho, arroz do seco, mandioca, batata-doce, feijão e cana-de-açúcar. Dia que eu mais gostava era dia de fazer melado”. Esse tipo de referência à terra é comum nos romances, principalmente na infância, mas em Vidas Secas toda a poesia da terra está seca, não floresce. Encontramos felicidade, as personagens a seu modo são felizes, vivem ou, sobrevivem mas a felicidade real ainda está por vir.

Tanto no Sul como no Nordeste o homem da terra precisa de muito pouco para ser feliz: luxo e ambição não fazem parte do seu dia-a-dia. Sua felicidade está no trabalho, na saúde, nos filhos trabalhadores e honestos, uma pequena horta e, raramente, em algum bem material, como vemos na passagem de Vidas Secas “ ... outra vez Sinhá Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro”.Infelizmente nessas obras a felicidade é pouca, e a luta pela terra e pela sobrevivência são constantes. Nessas obras temos uma visão de outra terra, uma terra cruel, injusta, desumana com aquele que trabalha e luta por ela.

Nessa terra, que e a realidade do homem em que nela vive, o homem trabalha, passa dificuldade, sofre, física e psicologicamente, como vemos nas seguintes passagens de O pêndulo do relógio. “Consumia-se debaixo do sol durante anos, enfrentava as cheias, as secas, as tempestades, o caruncho e a lagarta”, ou ainda como no trecho de Quem faz gemer a terra. “Um dia, o pai chegou da cidade com a idéia de plantar soja[...] Com as chuvas a roça ficou lavada[...] O pai pediu dinheiro do banco para pagar a safra[...] Quem podia imaginar que seria um ano de seca?”Ou ainda em Vidas Secas “o papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados, numa atitude ridícula. Sinhá Vitória resolveu aproveita-lo como alimento...”.

Embora ao textos falem do mesmo assunto, que e a terra, as obras de Graciliano e Kiefer são bem distintas. Vidas Secas aborda a vida do homem que não tem a terra, somente trabalha nela e sobrevive dela. O texto nos informa, nos apresenta os fatos de uma maneira clara, objetiva e irreversível, sem a possibilidade de revertermos os fatos. Vidas Secas mostra a trajetória de uma família no sertão do nordeste em busca de terra para viver após ter abandonado “ voluntariamente” sua terra. Graciliano, em seu texto, consegue algo impressionante, que é através da sua linguagem, seca, nos apresentar toda a falta de vida do sertão. A terra seca, sem flor, sem fruto, sem poesia, nos reflete na leitura a crueldade do sertão brasileiro. A linguagem curta, a escassez de dialogo, a passividade de Fabiano perante o soldado amarelo, Sinhá Terta a costureira e o fazendeiro, nos transmite indiferença ao homem e a sua causa, a causa da seca no sertão. Já na obra de Kiefer a questão da terra é voltada para o problema do sem-terra, do homem que perde a sua terra. E é esse rumo que toma a literatura de Kiefer que mais a distancia da obra de Graciliano, pois os fatos apresentados são claros, objetivos, mas muito questionados, não são aceitos, e levam personagem e leitor a repensar os fatos da perda da terra. O pêndulo do relógio fala de um produtor que perde sua terra, Quem faz gemer a terra é baseado num um fato real: a morte de um soldado no centro de Porto Alegre. Mas na obra de Kiefer o homem não abandona a terra, ao contrário, luta com todas as forças para permanecer nela. Nesses textos, esse homem trabalha, possui terra e dela vive, de repente se vê sem seu chão. Aqui a linguagem utilizada pelo autor é “ fértil ” o texto tem vida, o texto pulsa, mesmo na dor e desespero dos personagens há poesia; elas vivem, praticam a ação, amam, odeiam, explodem. Mesmo na questão sem solução, que e a da perda da terra, elas lutam, sofrem, morrem, mas nunca se deixam morrer.

No Nordeste, em Vidas Secas, nós somos informados da situação da terra, mas a linguagem seca e sem vida, sem perspectiva, nos causa comoção, sofrimento, mas não nos permite questionar, discutir ou sequer tentar reverter a situação; tudo é passivo, sofrido, sem perspectiva de solução. E, mais uma vez, então, temos que ressaltar a impressionante linguagem usada por Graciliano, que, ao nos apresentar os fatos, nos transporta para o mundo interior do romance, não estimulando o leitor a questionar politicamente a questão da seca. No Sul, através das obras de Kiefer, podemos, da maneira como a história nos é contada, nos questionar sobre tudo que já ouvimos até então. A perda da terra, o agricultor marginalizado, a violência física e psicológica sofrida por ele, nos reflete na leitura a crueldade das leis e dos homens. Com a leitura é possível identificar nessa luta de perda e posse da terra interesses políticos, ficando o colono, mais uma vez, sendo um alvo de interesses nas mãos dos governantes. E essa linguagem agente representa o homem que luta, que questiona, que age impulsivamente em palavras e gestos e que, mesmo sem querer, fere e mata. Mostram-se também, através dessa literatura ativa, histórias verídicas de colonos que morreram “acidentalmente”, segundo a versão da polícia, e de como foram noticiadas estas mortes.

Outra questão muito marcante nas obras de Graciliano e Kiefer, é o estilo do narrador. Em todos os textos o narrador assume um papel fundamental para o desenvolvimento do texto. Porém, esses narradores, tão fundamentais, tem dois pontos que se distanciam um do outro. O narrador de Vidas Secas usa uma linguagem escassa propositalmente, para mostrar a secura do sertão. Na obra de Kiefer a linguagem flui, não usa de artifícios para chamar a atenção da situação do sem-terra. Ainda na obra de Graciliano outra diferença marcante do narrador é que em relação a questão da terra, ele atesta, revela o problema da terra ou da falta dela. Na obra de Kiefer o problema já faz parte do cotidiano do leitor. Esse, por sua vez, tem a função de refletir, questionar o problema.

Mas a questão da terra não esta presente na literatura para ser resolvida. A terra está presente na literatura por uma questão de relação, de troca com o homem. Segundo o dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, a terra é mãe, simboliza a função maternal, dá a luz a todos os seres, alimenta-os, protege. O homem no seu intimo, reconhece na terra a figura da mãe, e luta pela sua fertilidade com a inchada e o arado, e se isso não for suficiente, luta com palavras, gestos e poesia para defender, proteger e saudar aquela que lhe deu a vida. A terra mãe.